domingo, 29 de julho de 2012

Milho verde... e as doces lembranças da infância

Durante esta semana fui presenteada inesperadamente com uma das delícias da culinária brasileira: um saco de milho verde. Pode parecer estranho  chamar a isso de “presente”.  O milho é um dos grandes curingas da culinária brasileira. Vai bem com diversos ingredientes e pode ser usado tanto no preparo de doces quanto de salgados. Mas milho verde à vista é sinal de “trabalho”... Muito trabalho...
Em meus tempos de criança, milho verde em casa significava festa, reunião de amigos, parentes, vizinhos.  Era quando as famílias se reuniam e dali saíam delícias como curau, pamonhas das mais variadas, cremes  e o tradicional bolo de milho.
O milho era colhido na roça mesmo, nas chácaras ao redor do povoados e até mesmo no fundo de grandes quintais.. Escolhiam-se as espigas mais tenras e bem granadas.  Voltávamos carregados de espigas de milho e ansiosos para começar a labuta.
As crianças ficavam por ali e ajudavam no que podiam. Umas descascavam o milho, outras eram encarregadas de limpar os cabelinhos. Para as  as pamonhas, a tarefa era mesmo de gente grande. Era preciso fazer um corte especial na espiga, e separar muito bem a palha que faria o saquinho para abrigar o creme da pamonha. Quando muito as crianças ficavam com a tarefa de fazer as tirinhas de palha para amarrar a pamonha que depois seria cozida.
Ainda lembro-me de minha mãe, avental todo respingado, à frente do bacião a ralar o milho. Detalhe para o ralo, que era artesanal. Muitas vezes feito por ela mesma  usando uma lata de óleo vazia  que era aberta e furadinha.  Mas tudo era uma festa. Nem se cogitava das facilidades de hoje em  triturar o milho no liquidificador  ou ralador elétrico como se vê hoje em dia.
O que importava era a reunião, as conversas ao pé do fogão, o trabalho em equipe que fortalecia as amizades e os laços familiares. E ao final de tanto trabalho, era um prazer  ver todas aquelas iguarias expostas sobre a mesa onde todos compartilhavam de um mesmo jeito de viver. Ali havia amor, partilha e solidariedade.
Ainda hoje revejo na memória  minha mãe espalhando os pratos sobre a mesa e derramando o curau quentinho e saboroso sobre ele.Amarelinho que ele só, de dar água na boca!  E ia enumerando... Esse para comadre fulana, outro para dona sicrana, esse para a dindinha... A comadre podia não ter comparecido ao mutirão. Mas nem por isso deixava de provar da iguaria.
Ah! Bons tempos aqueles! Tempos do fogão à lenha e um bolo de milho verde impregnando a casa com seu cheiro apetitoso.  Na boca do fogão se colocava a panela  com o bolo para assar sobre a chama. E o  douradinho e crocante por cima se conseguia  pelo calor das brasas que eram colocadas sobre a tampa que o cobria. Dificilmente alguém se lembrará dessa forma de assar bolo de milho. O cheiro era irresistível...
Bem, mas de volta à realidade. Eu não pude fazer essa “festa do milho”. Aliás, fiquei até um pouco agitada diante daquele saco de milho verde. Uma alegria que ficou prejudicada pela urgência que eu tinha em sair. Era dia da minha hidroterapia e, nem pensar em faltar. Ao mesmo tempo em que queria usufruir todas aquelas delícias que dali viria, também não tinha tempo disponível para aquele preparo.
A solução veio na partilha. Umas espigas para a vizinha de cá, outras para a vizinha de lá. Eu acabei no dia seguinte fazendo com o que me restou um delicioso curauzinho e um apetitoso bolo de milho. Não tive as brasas para assar meu bolo de milho, mas ele ficou divino, além de me reavivar todas essas lembranças da infância.
Os tempos mudaram, a nova tecnologia chegou, nosso jeito de viver é outro. Casas especializadas em iguarias feitas com milho verde estão espalhadas de norte a sul do país.
 Mas os valores, os conceitos que se adquiriram no passado, as doces lembranças de criança simples, pés descalços... Ah! Essas o tempo não pode mudar...

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